Universidade Federal de Pelotas
Resumen:
Este artigo analisa o filme O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind), dirigido por Sam Esmail, sob a perspectiva da Terapia Ocupacional e das contribuições de Vilém Flusser sobre o mundo codificado. Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter bibliográfico e analítico, que articula a narrativa cinematográfica aos conceitos de tecnologias da informação, contato mediado, contato direto e participação social. A discussão fundamenta-se no Occupational Therapy Practice Framework (OTPF-4), da American Occupational Therapy Association (AOTA), e em referenciais da Terapia Ocupacional Social, buscando compreender os impactos das catástrofes sobre o cotidiano e as ocupações humanas. Além da análise do filme, estabelece-se uma aproximação com as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024, evidenciando como eventos dessa natureza interrompem rotinas, fragilizam redes de apoio e comprometem a participação social. Os resultados indicam que a principal ruptura apresentada na narrativa não se limita ao colapso tecnológico, mas à desestruturação das ocupações e das relações que sustentam a vida cotidiana. Conclui-se que o cinema constitui um recurso relevante para a reflexão crítica na formação em Terapia Ocupacional, ao favorecer a compreensão das relações entre tecnologia, cotidiano, participação social e contextos de vulnerabilidade.
Palabras Clave: informação | catástrofe | participação | codificado
Information Technology, Disaster, and Social Participation: An Analysis of The Film Leave The World Behind From an Occupational Therapy Perspective
Abstract:
This article analyzes the film Leave the World Behind, directed by Sam Esmail, from the perspective of Occupational Therapy and Vilém Flusser’s concept of the coded world. It is a qualitative, bibliographic, and analytical study that connects the film’s narrative with the concepts of information technology, mediated and direct contact, and social participation. The discussion is based on the Occupational Therapy Practice Framework (OTPF-4) of the American Occupational Therapy Association (AOTA) and on theoretical contributions from Social Occupational Therapy to understand the impacts of disasters on everyday life and human occupations. In addition to the film analysis, the study draws parallels with the floods that affected the state of Rio Grande do Sul, Brazil, in 2024, highlighting how such events disrupt daily routines, weaken support networks, and compromise social participation. The findings indicate that the main disruption portrayed in the film is not limited to technological collapse but extends to the breakdown of occupations and the relationships that sustain everyday life. The study concludes that cinema is an important resource for critical reflection in Occupational Therapy education, fostering discussions on the relationship between technology, everyday life, social participation, and contexts of vulnerability.
Keywords: information | disaster | participation | coded
O cinema constitui um importante dispositivo de produção de sentidos, capaz de representar experiências humanas, problematizar fenômenos sociais e estimular reflexões críticas acerca da realidade. Mais do que uma forma de entretenimento, as produções cinematográficas possibilitam interpretar diferentes contextos históricos, culturais e políticos, tornando-se recursos relevantes para a formação de profissionais da saúde, entre eles os terapeutas ocupacionais. Ao representar transformações do cotidiano, rupturas sociais e modos de viver, o cinema aproxima-se de discussões centrais da Terapia Ocupacional, especialmente aquelas relacionadas às ocupações humanas, à participação social e às relações estabelecidas entre sujeitos, ambientes e tecnologias.
Nesse contexto, o filme O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind), dirigido por Sam Esmail e lançado em 2023, apresenta uma narrativa que ultrapassa a ideia de um desastre tecnológico. A obra acompanha duas famílias que, diante da interrupção simultânea dos sistemas de comunicação, energia, internet, telefonia e navegação, passam a enfrentar uma situação de incerteza absoluta. Ao longo da narrativa, o espectador percebe que a maior ameaça não é revelada de forma explícita; o verdadeiro colapso ocorre na desestruturação das formas de viver, comunicar-se e participar socialmente em uma sociedade profundamente dependente das tecnologias da informação.
Essa perspectiva permite compreender que a catástrofe apresentada pelo filme não se restringe à falha de equipamentos tecnológicos. O que entra em colapso é uma complexa rede de relações que organiza a vida cotidiana. Atividades como localizar-se, comunicar-se com familiares, acessar serviços de saúde, obter informações confiáveis, planejar deslocamentos e tomar decisões deixam de ser possíveis da maneira como eram realizadas anteriormente. Dessa forma, o filme evidencia que as tecnologias da informação passaram a constituir elementos estruturantes das ocupações humanas e da organização da vida social.
Essa discussão aproxima-se das contribuições de Vilém Flusser (2008), que compreende a sociedade contemporânea como um mundo codificado, no qual a experiência humana é mediada por aparelhos técnicos e sistemas de informação. Para o autor, a relação das pessoas com a realidade ocorre, cada vez mais, por meio de códigos produzidos pelos dispositivos tecnológicos, deslocando a experiência do contato direto com o mundo para um contato mediado por imagens, informações e programas. Quando esses códigos deixam de funcionar, como ocorre em O Mundo Depois de Nós, rompe-se também a forma habitual de compreender a realidade, produzindo insegurança, medo e dificuldade para agir.
A reflexão proposta por Flusser dialoga diretamente com a Terapia Ocupacional. Segundo o Occupational Therapy Practice Framework: Domain and Process (AOTA, 2020), as ocupações humanas são produzidas na interação entre pessoas, contextos, fatores ambientais e demandas sociais. A participação social, compreendida como o envolvimento em atividades que promovem pertencimento, cidadania e construção de relações significativas, depende não apenas das capacidades individuais, mas também das condições ambientais que possibilitam ou restringem esse envolvimento. Sob essa perspectiva, as tecnologias da informação podem ser compreendidas como fatores ambientais que facilitam a comunicação, o acesso aos serviços, a mobilidade e a participação na vida comunitária. Entretanto, quando essas tecnologias entram em colapso, as ocupações também são profundamente reorganizadas.
Ao longo do filme, observa-se que os personagens precisam reconstruir suas formas de convivência diante da impossibilidade de recorrer aos recursos tecnológicos que anteriormente organizavam seu cotidiano. O contato mediado pelos aparelhos cede espaço ao contato direto entre as pessoas, tornando o diálogo, a observação do ambiente, a cooperação e a construção da confiança elementos centrais para a sobrevivência. Essa transição evidencia não apenas uma mudança na comunicação, mas também uma transformação nas formas de participação social e nas maneiras pelas quais os sujeitos ocupam e compreendem o mundo.
A narrativa cinematográfica também permite estabelecer aproximações com acontecimentos recentes vivenciados pela sociedade brasileira, especialmente as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Assim como ocorre na ficção, milhares de pessoas enfrentaram a interrupção das redes de comunicação, dificuldades de deslocamento, isolamento territorial e reorganização de suas rotinas. Nessas circunstâncias, tornou-se evidente que os impactos de uma catástrofe extrapolam as perdas materiais, atingindo diretamente as ocupações cotidianas, os papéis sociais, as redes de apoio e as possibilidades de participação da população.
Nesse cenário, a Terapia Ocupacional oferece importantes contribuições para compreender como desastres tecnológicos e socioambientais afetam o cotidiano das pessoas e demandam processos de reconstrução das ocupações humanas. A análise do filme possibilita discutir que a participação social depende de uma complexa articulação entre sujeitos, tecnologias, ambientes e relações comunitárias, evidenciando que a interrupção desses elementos compromete significativamente as formas de viver e de participar da sociedade.
Diante disso, este artigo tem como objetivo analisar o filme O Mundo Depois de Nós à luz das contribuições de Vilém Flusser sobre o mundo codificado e o contato mediado, articulando essas reflexões aos referenciais da Terapia Ocupacional, especialmente ao conceito de participação social presente no Occupational Therapy Practice Framework (OTPF-4). Além disso, busca estabelecer aproximações entre a narrativa cinematográfica e as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024, discutindo como diferentes contextos de catástrofe produzem rupturas ocupacionais, reorganizam o cotidiano e desafiam as formas de participação social.
Desenvolvimento
Tecnologias da informação, mundo codificado e contato mediado: contribuições de vilém flusser
As transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas modificaram profundamente a forma como as pessoas estabelecem relações com o mundo, produzem conhecimento e organizam suas atividades cotidianas. A expansão da internet, dos dispositivos móveis, dos sistemas digitais de comunicação e das redes de informação fez com que diferentes dimensões da vida social passassem a depender da mediação tecnológica. Nesse contexto, compreender a tecnologia apenas como um conjunto de equipamentos torna-se insuficiente, uma vez que ela passou a constituir uma dimensão estruturante da experiência humana.
É nesse cenário que as reflexões de Vilém Flusser se tornam particularmente relevantes. Em O mundo codificado, o autor afirma que a sociedade contemporânea vive imersa em códigos produzidos por aparelhos técnicos, os quais deixam de funcionar apenas como instrumentos e passam a organizar a forma como os indivíduos percebem, interpretam e experienciam a realidade (Flusser, 2008). Para o filósofo, o ser humano contemporâneo relaciona-se com o mundo por meio de informações mediadas por imagens técnicas, programas e sistemas digitais, estabelecendo uma relação cada vez mais distante da experiência direta.
Segundo Flusser (2008), a cultura passou por diferentes formas de mediação ao longo da história. Inicialmente, predominava o contato direto com os objetos e com a natureza. Posteriormente, a escrita reorganizou a produção do conhecimento e, mais recentemente, as imagens técnicas produzidas pelos aparelhos passaram a ocupar posição central na construção da realidade. Assim, o mundo deixa de ser interpretado prioritariamente pela experiência concreta e passa a ser compreendido por códigos produzidos tecnologicamente.
Essa transformação é denominada pelo autor de mundo codificado, conceito que descreve uma realidade organizada por sistemas simbólicos mediados por aparelhos. Nesse contexto, as pessoas passam a confiar nas informações produzidas pelos dispositivos tecnológicos para orientar suas ações cotidianas. Mapas digitais substituem a orientação espacial baseada na observação do ambiente; aplicativos organizam deslocamentos; redes sociais mediam relações interpessoais; plataformas digitais tornam-se fontes privilegiadas de informação. Dessa maneira, os aparelhos deixam de ser simples ferramentas e tornam-se mediadores permanentes da relação entre os sujeitos e o mundo.
Essa reflexão aproxima-se diretamente da narrativa apresentada em O Mundo Depois de Nós. Desde as primeiras cenas, observa-se que os personagens organizam sua vida cotidiana por meio das tecnologias da informação. Amanda utiliza constantemente o telefone celular para buscar notícias e informações; Clay acredita que os meios de comunicação serão capazes de explicar os acontecimentos; os sistemas de navegação orientam os deslocamentos da família; o acesso à internet constitui a principal estratégia para compreender a situação vivenciada. Em nenhum momento inicial os personagens recorrem prioritariamente à observação do ambiente ou ao diálogo com outras pessoas. A confiança está depositada nos aparelhos.
Quando ocorre o colapso das tecnologias da informação, entretanto, evidencia-se aquilo que Flusser descreve como a ruptura dos códigos que organizam a experiência contemporânea. A ausência de internet, telefonia, televisão, rádio e sistemas de localização não representa apenas a perda de equipamentos tecnológicos. O que desaparece é a principal referência utilizada pelos personagens para compreender o mundo. Sem informações confiáveis, instala-se um cenário de incerteza, medo e desorientação, no qual até mesmo ações consideradas simples tornam-se extremamente complexas.
Uma das cenas mais emblemáticas dessa ruptura ocorre quando a família tenta utilizar o GPS para retornar à cidade e percebe que o sistema deixou de funcionar. Acostumados a deslocar-se por meio das orientações produzidas pelos dispositivos digitais, os personagens demonstram dificuldade para interpretar o espaço físico sem essa mediação tecnológica. O território permanece o mesmo; entretanto, a forma de relacionar-se com ele foi profundamente modificada pela dependência dos códigos digitais. A dificuldade não está apenas na ausência do aparelho, mas na perda da capacidade de orientar-se por outros referenciais.
Outra cena significativa é a colisão do navio cargueiro contra a praia. Embora visualmente impactante, essa sequência possui forte dimensão simbólica. A embarcação, equipada com sofisticados sistemas tecnológicos de navegação, torna-se incapaz de cumprir sua função quando os códigos que orientam seu funcionamento entram em colapso. O navio deixa de representar apenas um acidente e passa a simbolizar a vulnerabilidade de uma sociedade que organiza suas práticas cotidianas a partir de sistemas tecnológicos invisíveis, cuja interrupção compromete profundamente as possibilidades de agir no mundo.
Ao discutir essa dependência, Flusser (2008) diferencia o contato direto do contato mediado. O contato direto caracteriza-se pela relação imediata entre sujeito, ambiente e experiência, construída pela observação, pela convivência e pela interação presencial. Já o contato mediado ocorre quando essa relação passa a ser intermediada por aparelhos técnicos, imagens e informações produzidas tecnologicamente. Na contemporaneidade, o contato mediado ocupa posição predominante, influenciando desde as formas de comunicação até a produção de conhecimento sobre a realidade.
No filme, essa distinção torna-se evidente à medida que a narrativa avança. Sem acesso às tecnologias da informação, os personagens precisam reconstruir formas de interação fundamentadas no contato direto. A observação do comportamento dos animais, a escuta dos sons produzidos no ambiente, as conversas presenciais e a cooperação entre os indivíduos tornam-se estratégias fundamentais para interpretar os acontecimentos e tomar decisões. Não se trata de uma valorização romântica da ausência de tecnologia, mas da demonstração de que a dependência exclusiva do contato mediado pode ampliar situações de vulnerabilidade quando os sistemas tecnológicos entram em colapso.
Essa discussão apresenta importantes aproximações com a Terapia Ocupacional. Ao compreender que as ocupações humanas são produzidas na interação entre pessoas, ambientes e contextos, a profissão reconhece que os recursos tecnológicos constituem fatores ambientais capazes de facilitar ou restringir a participação nas atividades cotidianas. Assim, quando os sistemas de informação deixam de funcionar, não ocorre apenas uma falha tecnológica; modificam-se também as condições de realização das ocupações, da comunicação, da mobilidade e da participação social.
Sob essa perspectiva, o filme evidencia que as tecnologias da informação passaram a integrar a organização do cotidiano contemporâneo. Mais do que instrumentos auxiliares, constituem elementos que estruturam modos de viver, formas de interação e possibilidades de participação na sociedade. A ruptura apresentada na narrativa revela, portanto, não apenas a fragilidade das infraestruturas tecnológicas, mas também a necessidade de refletir criticamente sobre a crescente dependência dos aparelhos na constituição da experiência humana.
A catástrofe como ruptura das ocupações e da participação social: um olhar da terapia ocupacional
Embora O Mundo Depois de Nós seja apresentado como um thriller psicológico sobre um possível ataque cibernético, a narrativa permite compreender que a maior ruptura provocada pela catástrofe não é tecnológica, mas ocupacional. À medida que os sistemas de comunicação deixam de funcionar, os personagens perdem as referências que organizavam suas atividades cotidianas, seus papéis sociais e suas formas de participação na vida em comunidade. Sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, esse processo evidencia que as ocupações humanas são continuamente produzidas na interação entre pessoas, ambientes, objetos, tecnologias e relações sociais.
O Occupational Therapy Practice Framework: Domain and Process (OTPF-4), publicado pela American Occupational Therapy Association (AOTA, 2020), compreende as ocupações como atividades cotidianas que possuem significado para as pessoas e estruturam sua participação na sociedade. Essas ocupações incluem atividades de vida diária, atividades instrumentais de vida diária, gerenciamento da saúde, descanso e sono, educação, trabalho, lazer, brincar e participação social. Entretanto, sua realização não depende apenas das capacidades individuais, mas também dos contextos e fatores ambientais que favorecem ou restringem o desempenho ocupacional.
Entre esses fatores ambientais encontram-se os recursos tecnológicos, os sistemas de comunicação, a infraestrutura urbana, os serviços públicos e as redes de apoio social. Em uma sociedade altamente conectada, a internet, os telefones celulares, os aplicativos de navegação e as plataformas digitais deixaram de representar apenas ferramentas complementares e passaram a constituir elementos indispensáveis para a realização de inúmeras ocupações. Assim, quando esses recursos entram em colapso, modificam-se profundamente as possibilidades de participação das pessoas em seus diferentes contextos de vida.
No filme, essa transformação torna-se evidente logo após a interrupção dos sistemas de informação. A impossibilidade de utilizar o GPS compromete os deslocamentos da família; a ausência da telefonia impede o contato com familiares; a falta de acesso às notícias impossibilita compreender a dimensão da crise; a interrupção da internet dificulta a busca por informações e por serviços. Dessa forma, atividades que anteriormente eram realizadas de maneira automática passam a exigir novas estratégias de enfrentamento.
Sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, observa-se que os personagens experimentam aquilo que pode ser compreendido como uma ruptura do cotidiano. O cotidiano, entendido como o espaço em que as ocupações são produzidas e significadas, deixa de apresentar estabilidade. Rotinas anteriormente previsíveis são interrompidas, papéis sociais tornam-se incertos e atividades habituais deixam de ser possíveis. A catástrofe rompe aquilo que dava continuidade à vida diária e obriga os sujeitos a reorganizarem suas formas de agir, comunicar-se e participar do mundo.
Essa reorganização manifesta-se de diferentes maneiras ao longo da narrativa. Amanda, inicialmente, busca recuperar o controle da situação por meio do telefone celular e das notícias. Sua insistência em acessar informações revela que grande parte de sua autonomia cotidiana estava vinculada ao funcionamento dos sistemas tecnológicos. Quando esses dispositivos deixam de responder, observa-se o aumento da ansiedade, da insegurança e da dificuldade para tomar decisões. O filme demonstra que a perda da tecnologia representa, simultaneamente, a perda das referências que orientavam suas ocupações.
Clay apresenta um movimento distinto. Enquanto Amanda permanece presa à expectativa de que os aparelhos voltem a funcionar, Clay procura compreender a situação por meio do diálogo e da interação com outras pessoas. Aos poucos, suas ações passam a depender menos dos dispositivos tecnológicos e mais da observação do ambiente e da construção de relações de confiança. Essa mudança evidencia um deslocamento do contato mediado para o contato direto, conforme discutido por Vilém Flusser, indicando que novas formas de participação social podem emergir quando as mediações tecnológicas deixam de existir.
A personagem Rose também merece destaque sob a perspectiva da Terapia Ocupacional. Durante grande parte da narrativa, sua principal preocupação consiste em assistir ao episódio final da série Friends. Em uma leitura superficial, esse comportamento pode parecer irrelevante diante da gravidade da situação vivenciada. Entretanto, considerando que o lazer constitui uma ocupação reconhecida pelo OTPF-4, sua insistência pode ser compreendida como a tentativa de preservar uma atividade significativa capaz de manter certo senso de continuidade em meio ao caos. O filme demonstra que as ocupações de lazer não representam apenas momentos de entretenimento, mas contribuem para a construção da identidade, do pertencimento e do equilíbrio ocupacional.
Outro aspecto importante refere-se à condição de saúde de Archie. Após apresentar alterações físicas decorrentes da exposição aos acontecimentos da catástrofe, sua família enfrenta enormes dificuldades para acessar cuidados em saúde. Hospitais, sistemas de comunicação e formas de deslocamento deixam de funcionar adequadamente, evidenciando que o cuidado em saúde depende de uma complexa rede de fatores ambientais. A interrupção dessa rede amplia situações de vulnerabilidade e restringe as possibilidades de cuidado, demonstrando que a participação nas ocupações relacionadas ao gerenciamento da saúde não depende exclusivamente da vontade ou das capacidades individuais.
As relações estabelecidas entre Amanda, Clay, George e Ruth também sofrem profundas transformações. Inicialmente marcadas pela desconfiança, essas interações refletem a dificuldade de confiar em pessoas desconhecidas quando não existem mecanismos tecnológicos capazes de confirmar identidades ou fornecer informações confiáveis. Progressivamente, entretanto, o compartilhamento das tarefas cotidianas, o diálogo e a convivência favorecem a construção de vínculos baseados na experiência direta. A participação social deixa de ocorrer prioritariamente por meio das tecnologias e passa a ser construída na presença, na cooperação e na responsabilidade compartilhada.
Sob esse olhar, a catástrofe apresentada pelo filme evidencia que a participação social não pode ser compreendida apenas como a presença física dos sujeitos em determinados espaços. Conforme o OTPF-4, participar socialmente significa envolver-se em atividades, relações e papéis que possibilitam pertencimento, troca e construção da vida coletiva. Quando as tecnologias da informação deixam de funcionar, não ocorre apenas uma interrupção da comunicação; rompem-se redes de apoio, formas de acesso aos serviços, possibilidades de mobilidade e oportunidades de interação, comprometendo profundamente o exercício da participação social.
Dessa maneira, O Mundo Depois de Nós demonstra que as catástrofes produzem impactos que ultrapassam a dimensão material. Elas reorganizam as ocupações humanas, modificam os papéis sociais e exigem que indivíduos e comunidades reconstruam novas formas de viver, comunicar-se e participar do mundo. Essa compreensão aproxima-se dos princípios da Terapia Ocupacional, que reconhece o cotidiano como espaço de produção da vida social e compreende as ocupações como elementos fundamentais para a promoção da saúde, da autonomia e da cidadania.
Da ficção à realidade: O Mundo Depois de Nós, as enchentes no rio grande do sul e as contribuições da terapia ocupacional
Embora O Mundo Depois de Nós apresente uma narrativa ficcional, as situações vivenciadas pelos personagens permitem estabelecer aproximações com eventos reais que afetaram profundamente a sociedade contemporânea. Entre esses acontecimentos, destacam-se as enchentes que atingiram o estado do Rio Grande do Sul em maio de 2024, consideradas uma das maiores catástrofes socioambientais da história brasileira recente. Em ambos os contextos, observa-se que a interrupção das redes de comunicação, dos deslocamentos e do acesso aos serviços essenciais produziu impactos que ultrapassaram os danos materiais, comprometendo a organização do cotidiano e as possibilidades de participação social.
As enchentes provocaram alagamentos em centenas de municípios, destruíram moradias, interromperam serviços públicos e obrigaram milhares de pessoas a abandonarem suas casas. A interrupção do fornecimento de energia elétrica, a queda dos serviços de telefonia e internet, o bloqueio de rodovias e o isolamento de comunidades dificultaram o acesso às informações e aos serviços de saúde, assistência social, educação e trabalho. Assim como ocorre no filme, a perda da infraestrutura tecnológica não representou apenas um problema operacional, mas comprometeu profundamente a maneira como as pessoas organizavam suas ocupações cotidianas.
No filme, Amanda e sua família experimentam uma sensação constante de incerteza porque deixam de compreender o que está acontecendo ao seu redor. Sem internet, televisão, rádio ou telefonia, os personagens passam a interpretar os acontecimentos a partir de informações fragmentadas, observações do ambiente e relatos de outras pessoas. Situação semelhante foi vivenciada por muitas famílias durante as enchentes no Rio Grande do Sul, quando comunidades permaneceram isoladas por dias, sem qualquer possibilidade de comunicação com familiares, equipes de resgate ou órgãos públicos. Em ambos os cenários, a ausência das tecnologias da informação intensificou sentimentos de medo, insegurança e desorientação.
Sob a perspectiva de Vilém Flusser (2008), essas experiências evidenciam a vulnerabilidade de uma sociedade estruturada por aparelhos e códigos tecnológicos. Quando os sistemas responsáveis pela circulação das informações deixam de funcionar, rompe-se a principal mediação por meio da qual os sujeitos compreendem a realidade. A experiência passa a depender novamente do contato direto, da observação do ambiente, das relações presenciais e da circulação de informações entre as pessoas. Dessa maneira, tanto a ficção quanto a realidade demonstram que a tecnologia constitui parte fundamental da organização da vida social contemporânea.
A Terapia Ocupacional amplia essa compreensão ao reconhecer que desastres produzem rupturas ocupacionais. Mais do que destruir espaços físicos, eventos dessa natureza interrompem atividades significativas, alteram papéis sociais, desorganizam rotinas e fragilizam redes de apoio comunitário. A perda da moradia, a suspensão das atividades escolares, a interrupção do trabalho, o afastamento dos territórios de pertencimento e a dificuldade de acesso aos serviços repercutem diretamente sobre a saúde, a autonomia e a participação social das pessoas atingidas.
Nesse sentido, Galheigo (2020) afirma que o cotidiano não corresponde apenas à repetição de tarefas diárias, mas constitui o espaço onde se produzem relações sociais, identidades, pertencimento e projetos de vida. Quando uma catástrofe rompe essa organização cotidiana, não se perdem apenas bens materiais; perdem-se referências que estruturavam a existência das pessoas. A reconstrução, portanto, ultrapassa a recuperação da infraestrutura física e envolve também a reconstrução das ocupações, dos vínculos sociais e das possibilidades de participação na comunidade.
Da mesma forma, Lopes e Malfitano (2017) defendem que a participação social deve ser compreendida como um processo coletivo, produzido nas relações entre sujeitos, territórios e oportunidades sociais. Não basta que as pessoas estejam fisicamente presentes em determinado espaço; é necessário que existam condições concretas para que possam exercer seus papéis sociais, acessar direitos, construir vínculos e participar da vida comunitária. Durante as enchentes, milhares de pessoas encontravam-se em abrigos temporários, distantes de suas casas, escolas, locais de trabalho e redes de convivência. A reconstrução da participação social passou, portanto, pela reorganização dessas relações e não apenas pela reconstrução das cidades.
Essa perspectiva aproxima-se diretamente da narrativa de O Mundo Depois de Nós. Ao longo do filme, os personagens são obrigados a reorganizar continuamente suas ocupações. Atividades antes simples, como preparar alimentos, buscar atendimento em saúde, comunicar-se com familiares ou deslocar-se pela cidade, passam a exigir novas estratégias. A convivência entre Amanda, Clay, George e Ruth também se transforma, pois a cooperação deixa de representar uma escolha e torna-se condição para enfrentar a situação vivenciada. A participação social passa a ser construída por meio da solidariedade, da confiança e da responsabilidade compartilhada.
Nesse contexto, a atuação da Terapia Ocupacional em situações de emergências e desastres torna-se especialmente relevante. Conforme discutem Ribeiro e Magalhães (2024), terapeutas ocupacionais contribuem para a reconstrução do cotidiano das populações atingidas ao favorecer a reorganização das rotinas, fortalecer redes comunitárias, apoiar processos de participação social e desenvolver estratégias que possibilitem a retomada das ocupações significativas. O foco da intervenção não se limita ao atendimento individual, mas envolve a compreensão dos impactos sociais, culturais e territoriais produzidos pelos desastres.
Ao relacionar O Mundo Depois de Nós às enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul, percebe-se que ambos os cenários evidenciam um aspecto frequentemente invisibilizado nas discussões sobre catástrofes: a ruptura da vida cotidiana. Tanto na ficção quanto na realidade, o desafio não consiste apenas em sobreviver ao desastre, mas em reconstruir formas de viver, cuidar, trabalhar, comunicar-se e participar da sociedade. É justamente nesse processo de reconstrução que a Terapia Ocupacional encontra um importante campo de atuação, contribuindo para que indivíduos e comunidades recuperem suas ocupações e fortaleçam sua participação social.
Cinema como dispositivo para pensar a ruptura do cotidiano
A análise de O Mundo Depois de Nós evidencia que o filme ultrapassa a representação de uma catástrofe tecnológica e propõe uma reflexão sobre a fragilidade das formas contemporâneas de viver. Embora a narrativa seja construída a partir do colapso dos sistemas de informação e comunicação, seus principais impactos manifestam-se na reorganização do cotidiano, das ocupações humanas e das relações sociais. Sob essa perspectiva, o cinema apresenta-se como um importante dispositivo para problematizar questões que atravessam a vida contemporânea e dialogam diretamente com os referenciais da Terapia Ocupacional.
Ao articular as contribuições de Vilém Flusser com o Occupational Therapy Practice Framework (OTPF-4), torna-se possível compreender que as tecnologias da informação deixaram de ocupar uma posição periférica na sociedade. Os aparelhos tecnológicos passaram a integrar a organização das ocupações humanas, influenciando a comunicação, a mobilidade, o acesso aos serviços, o gerenciamento da saúde, o trabalho, o lazer e as formas de participação social. Assim, quando esses sistemas entram em colapso, não ocorre apenas uma falha técnica; interrompem-se condições fundamentais para o desenvolvimento da vida cotidiana.
A narrativa cinematográfica demonstra que a dependência dos códigos tecnológicos produz uma transformação significativa na relação entre as pessoas e o mundo. Conforme discutido por Flusser (2008), a sociedade contemporânea estrutura sua experiência por meio de informações mediadas por aparelhos. No filme, a perda dessas mediações produz desorientação, medo e dificuldade para interpretar a realidade. Entretanto, também evidencia que novas formas de interação podem ser construídas quando os sujeitos passam a estabelecer relações baseadas na presença, na observação e na cooperação.
Essa transformação aproxima-se das discussões da Terapia Ocupacional acerca da participação social. O OTPF-4 compreende que participar socialmente não significa apenas estar presente em um determinado espaço, mas envolver-se em relações que possibilitem pertencimento, construção de papéis sociais e exercício da cidadania (AOTA, 2020). Ao longo do filme, observa-se que a interrupção das tecnologias compromete exatamente essas possibilidades. Os personagens deixam de acessar informações, perdem contato com familiares, têm dificuldades para deslocar-se e reorganizam continuamente suas ocupações diante das mudanças impostas pela catástrofe.
A literatura brasileira da Terapia Ocupacional amplia essa compreensão ao defender que o cotidiano constitui o espaço onde a vida social é produzida. As ocupações humanas não acontecem de maneira isolada; elas são construídas nas relações entre sujeitos, territórios, políticas públicas, cultura e oportunidades sociais. Dessa forma, quando uma catástrofe rompe essas relações, ocorre uma ruptura ocupacional que ultrapassa a dimensão individual e alcança comunidades inteiras. O desafio deixa de ser apenas sobreviver ao desastre e passa a envolver a reconstrução das condições que possibilitam viver, conviver e participar da sociedade.
Essa perspectiva torna-se ainda mais evidente quando o filme é aproximado das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024. Tanto na ficção quanto na realidade, observa-se que a interrupção da comunicação, dos deslocamentos e do acesso aos serviços compromete profundamente o cotidiano das pessoas. As dificuldades enfrentadas não decorrem exclusivamente da perda de infraestrutura, mas da impossibilidade de exercer ocupações significativas, manter vínculos sociais e acessar direitos fundamentais. Assim, a reconstrução da vida cotidiana torna-se tão importante quanto a reconstrução dos espaços físicos.
Nesse contexto, a Terapia Ocupacional assume papel relevante ao compreender que os impactos de uma catástrofe devem ser analisados para além das perdas materiais. A profissão contribui para identificar como as rupturas ocupacionais afetam diferentes grupos sociais, reconhecendo que fatores econômicos, culturais, territoriais e tecnológicos influenciam diretamente as possibilidades de participação social. Dessa maneira, o foco da intervenção desloca-se da doença ou da deficiência para a reconstrução das condições que permitem às pessoas retomarem suas ocupações e reconstruírem seus projetos de vida.
O filme também convida a refletir criticamente sobre a relação estabelecida entre tecnologia e autonomia. Frequentemente, os avanços tecnológicos são associados à ampliação da independência humana. Entretanto, a narrativa evidencia que a dependência excessiva desses recursos pode ampliar situações de vulnerabilidade quando os sistemas deixam de funcionar. Isso não significa negar a importância das tecnologias da informação, mas reconhecer que elas constituem fatores ambientais que podem tanto favorecer quanto restringir a participação ocupacional, dependendo das condições em que estão inseridas.
Assim, O Mundo Depois de Nós demonstra que a principal catástrofe representada pelo filme não consiste na ausência da internet ou da energia elétrica, mas na ruptura das formas de viver que esses recursos passaram a sustentar. Ao evidenciar essa fragilidade, a obra aproxima-se das discussões desenvolvidas pela Terapia Ocupacional acerca do cotidiano, da participação social e das ocupações humanas, revelando o potencial do cinema como recurso para a formação crítica de futuros profissionais da saúde.
Conclusão
A análise do filme O Mundo Depois de Nós permitiu compreender que a catástrofe representada na narrativa ultrapassa a interrupção de sistemas tecnológicos, revelando a profunda dependência da sociedade contemporânea em relação às tecnologias da informação para organizar a vida cotidiana. Ao evidenciar o colapso da internet, da telefonia, dos sistemas de localização e dos meios de comunicação, o filme demonstra que esses recursos deixaram de desempenhar apenas uma função instrumental, passando a estruturar formas de comunicação, deslocamento, cuidado, tomada de decisões e participação social.
A partir das contribuições de Vilém Flusser, foi possível compreender que a sociedade contemporânea encontra-se inserida em um mundo codificado, no qual a experiência humana é mediada por aparelhos e informações. A ruptura desses códigos, apresentada ao longo da narrativa, produz um processo de desorientação que não se restringe à dimensão tecnológica, mas interfere diretamente na maneira como os sujeitos interpretam a realidade e constroem suas relações com o ambiente e com os outros.
Sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, a narrativa evidencia que as ocupações humanas são continuamente produzidas na interação entre sujeitos, contextos e condições materiais. Assim, quando os sistemas tecnológicos deixam de funcionar, não ocorre apenas a perda de equipamentos ou serviços, mas uma reorganização das possibilidades de participação social, de comunicação, de mobilidade, de acesso ao cuidado e de realização das atividades cotidianas. O filme demonstra que a participação social depende de uma rede complexa de relações e infraestruturas, tornando visível a fragilidade dessas conexões diante de situações de crise.
A aproximação entre a narrativa cinematográfica e as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul reforça que os impactos produzidos por catástrofes não se limitam aos danos físicos ou materiais. Tanto na ficção quanto na realidade, a interrupção das redes de comunicação, dos deslocamentos e dos serviços compromete profundamente a organização do cotidiano e exige que indivíduos e comunidades reconstruam formas de convivência, cooperação e participação. Nesse sentido, o diálogo com a literatura da Terapia Ocupacional amplia a compreensão dos desastres como fenômenos que produzem rupturas ocupacionais e transformam as condições concretas de viver em sociedade.
Por fim, este estudo evidencia o potencial do cinema como recurso para a reflexão crítica na formação em Terapia Ocupacional. Mais do que ilustrar conceitos teóricos, O Mundo Depois de Nós possibilita problematizar questões contemporâneas relacionadas às tecnologias da informação, à participação social e às ocupações humanas, favorecendo uma leitura que articula filosofia, realidade social e prática profissional. Espera-se que esta análise contribua para ampliar as discussões sobre o impacto das tecnologias na constituição do cotidiano e incentive novas investigações acerca das relações entre cinema, Terapia Ocupacional e sociedade.
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Silva, C.R.; Oliver, F.C. Participação social e terapia ocupacional: perspectivas contemporâneas. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, São Carlos, v. 27, n. 4, p. 861-870, 2019.
Esmail, S. (dir.). O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind). Produção de Barack Obama, Michelle Obama, Julia Roberts et al. Estados Unidos: Netflix, 2023. Filme (141 min.).
NOTAS
FORUM
Película:Dejar el mundo atrás (O Mundo Depois de Nós)
Título Original:Leave the World Behind
Director: Sam Esmail
Año: 2023
País: Estados Unidos
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