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Trauma e percepção da realidade: Uma análise do filme Fratura (2019)

por Dos Santos Rodrigues, Evelyn

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

O presente trabalho apresenta uma análise do filme Fratura (Fractured, 2019), dirigido por Brad Anderson, evidenciando os impactos do trauma na saúde mental e no cotidiano do protagonista Ray Monroe. Após um acidente envolvendo sua esposa e sua filha, Ray passa a construir uma narrativa delirante como forma de negar a realidade da perda, comprometendo sua percepção dos acontecimentos, suas relações sociais e a organização de suas atividades cotidianas. A obra conduz o espectador por uma narrativa marcada pela incerteza entre realidade e delírio, revelando como o sofrimento psíquico pode repercutir significativamente na forma como o indivíduo interpreta o mundo e conduz sua vida. Assim, o filme possibilita refletir sobre as repercussões do trauma na saúde mental e seus impactos sobre o cotidiano.

Palabras Clave: Trauma | Cotidiano

Trauma and The Perception of Reality: An Analysis of Fractured (2019)

Abstract:

This study presents an analysis of the film Fractured (2019), directed by Brad Anderson, highlighting the impact of trauma on the mental health and everyday life of the protagonist, Ray Monroe. Following an accident involving his wife and daughter, Ray constructs a delusional narrative as a way of denying the reality of his loss, compromising his perception of events, his social relationships, and the organization of his daily activities. The film leads viewers through a narrative marked by uncertainty between reality and delusion, revealing how psychological suffering can significantly affect the way individuals interpret the world and conduct their everyday lives. Thus, the film provides an opportunity to reflect on the consequences of trauma for mental health and its impact on everyday life.

Keywords: Trauma | Everyday Life


Resumo da obra

O filme Fratura (Fractured, 2019), dirigido por Brad Anderson, acompanha Ray Monroe durante uma viagem com sua esposa, Joanne, e sua filha, Peri. Após uma parada em um posto de gasolina, a menina sofre uma queda e Ray também se acidenta ao tentar socorrê-la. Preocupados com o estado da filha, a família procura atendimento em um hospital, onde Peri é encaminhada para exames acompanhada da mãe. Enquanto espera por notícias, Ray adormece na sala de espera e, ao despertar, percebe que Joanne e Peri desapareceram. Para sua surpresa, os profissionais do hospital afirmam não haver qualquer registro da presença delas na instituição. Convencido de que sua família está sendo mantida no hospital contra a vontade, Ray inicia uma busca desesperada por respostas. Ao longo da narrativa, ele entra em conflito com médicos, funcionários e policiais, enquanto surgem evidências que contradizem sua versão dos fatos. Paralelamente, é revelado que o protagonista é um alcoolista em recuperação e que carrega experiências traumáticas relacionadas a perdas anteriores.

À medida que a trama avança, Ray passa a acreditar que o hospital está envolvido em um esquema de tráfico de órgãos e que sua esposa e filha são vítimas desta conspiração. Movido por essa convicção, ele invade áreas restritas da instituição, agride funcionários e foge do local acreditando ter resgatado sua família. Contudo, o desfecho revela que os acontecimentos eram resultado de um delírio construído por sua mente como forma de negar uma experiência traumática. Na realidade, Peri morreu em decorrência da queda e Joanne faleceu logo após, durante o desespero causado pelo acidente. Os corpos de ambas permaneceram no porta-malas do carro durante todo o tempo, enquanto Ray vivenciava uma ruptura entre sua percepção e a realidade, incapaz de lidar com a perda de sua família.

Trauma, delírio e comprometimento do cotidiano

A compreensão da saúde mental ultrapassa uma perspectiva centrada apenas no diagnóstico ou na identificação de transtornos, abrangendo também a singularidade do sujeito, sua história de vida, suas relações interpessoais e o contexto social em que está inserido (Amarante, 2011). Sob essa perspectiva, torna-se possível compreender que experiências traumáticas podem repercutir não apenas sobre o estado psíquico do indivíduo, mas também sobre a forma como ele percebe a realidade, estabelece vínculos e organiza seu cotidiano. No caso de Ray, o acidente envolvendo sua esposa e sua filha desencadeia uma ruptura em sua percepção dos acontecimentos, levando-o a construir uma narrativa delirante como forma de negar a realidade vivenciada e reorganizando todas as suas ações em torno da tentativa de resgatar a família.

A percepção de Ray acerca dos acontecimentos mostra-se alterada após o evento traumático. Sua convicção de que a esposa e a filha se encontram em perigo constrói uma narrativa paralela à realidade, aspecto que pode ser relacionado aos sintomas dissociativos descritos pela American Psychiatric Association (2014, p. 274), especialmente aqueles associados à desrealização, caracterizada pela percepção do ambiente como irreal ou distorcido. À medida que o delírio se intensifica, Ray demonstra crescente dificuldade em estabelecer relações de confiança com as pessoas ao seu redor. Sua interação com profissionais de saúde e autoridades passa a ser marcada por conflitos e suspeitas, resultando em um progressivo afastamento social. Tal aspecto pode ser relacionado à participação social, compreendida pela American Occupational Therapy Association (AOTA, 2021, p. 32) como o envolvimento em atividades que promovem interação com familiares, amigos, colegas e membros da comunidade.

Ainda de acordo com a AOTA (2021, p. 29), as Atividades de Vida Diária (AVDs) consistem em atividades orientadas para o cuidado do próprio corpo e realizadas por rotina, sendo fundamentais para a organização e manutenção do cotidiano. No caso de Ray, o trauma vivenciado altera significativamente essa organização. A crença de que sua esposa e filha foram vítimas de uma conspiração faz com que todas as suas ações sejam direcionadas à tentativa de encontrá-las. Com isso, atividades cotidianas anteriormente necessárias se tornam secundárias diante da busca incessante pela família, evidenciando como sua percepção distorcida da realidade interfere na forma como se relaciona com o ambiente e conduz sua própria vida.

Conclusão

A análise de Fratura demonstra que o trauma vivenciado por Ray está associado a alterações em sua percepção da realidade, influenciando suas relações sociais e a organização de seu cotidiano. A construção de uma narrativa delirante direciona suas ações e compromete sua capacidade de interpretar adequadamente os acontecimentos ao seu redor. Dessa forma, o filme evidencia como experiências traumáticas podem repercutir significativamente na forma como os indivíduos se relacionam com o ambiente e conduzem suas atividades cotidianas.

Referencias:

Amarante, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.

AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION. Enquadramento da prática da terapia ocupacional: domínio e processo. 4. ed. Versão portuguesa de Maria Dulce Gomes, Liliana Teixeira e Jaime Ribeiro. Leiria: Escola Superior de Saúde, Politécnico de Leiria, 2021.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento et al. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Anderson, B. (Direção), Schiff, P., Neal H. Moritz; Mike Macari (Produção). Fratura. Estados Unidos: Netflix, 2019. 1 filme (100 min).



NOTAS




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Película:Fractura (Fratura)

Título Original:Fractured

Director: Brad Anderson

Año: 2019

País: Estados Unidos

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