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Uma história sobre voz, direitos e pertencimento

por Cunha, Lara

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

O presente trabalho apresenta uma análise do filme Fora de Mim (2014), evidenciando a trajetória de Melody, uma menina com paralisia cerebral que enfrenta diferentes barreiras para exercer seu direito à educação inclusiva. A obra retrata os desafios impostos pelo capacitismo, pelos preconceitos e pela falta de preparo da escola diante da inclusão de estudantes com deficiência, ao mesmo tempo em que destaca a importância da Comunicação Aumentativa e Alternativa, do apoio familiar e da acessibilidade para promover autonomia, participação e pertencimento.

Palabras Clave: inclusão | capacitismo

Out of My Mind: A Story About Voice, Rights, and Belonging

Abstract:

This paper presents an analysis of the film Out of My Mind (2014), highlighting the journey of Melody, a girl with cerebral palsy who faces different barriers to exercising her right to inclusive education. The film portrays the challenges imposed by ableism, prejudice, and the school’s lack of preparedness for the inclusion of students with disabilities, while emphasizing the importance of Augmentative and Alternative Communication (AAC), family support, and accessibility in promoting autonomy, participation, and a sense of belonging.

Keywords: inclusive | ableism


O filme Fora de Mim, dirigido por Amber Sealey e disponível na plataforma Disney+, acompanha a trajetória de Melody Brooks, uma menina de 12 anos com paralisia cerebral, usuária de cadeira de rodas e não verbal. A personagem é interpretada por Phoebe-Ray Taylor, atriz que também possui paralisia cerebral. Outro elemento marcante é a narração de Jennifer Aniston, que dá voz aos pensamentos de Melody. Enquanto, para o mundo, ela permanece em silêncio, o espectador conhece sua personalidade, seus sentimentos, seu senso de humor e sua inteligência. Evidenciando que a ausência de fala não significa ausência de pensamento, permitindo compreender desde o início que a maior barreira enfrentada pela protagonista não está em sua condição física, mas na forma como a sociedade a percebe.

A paralisia cerebral é uma condição neurológica permanente que afeta principalmente o movimento, a postura e, em muitos casos, a fala. Entretanto, ela não determina, necessariamente, comprometimento cognitivo. No caso de Melody, o filme evidencia que suas capacidades intelectuais estão preservadas. Ela acompanha as aulas, compreende tudo o que acontece ao seu redor, possui boa memória, pensamento crítico e grande capacidade de aprendizagem. Apesar disso, sua dificuldade de comunicação faz com que muitas pessoas associam, de maneira equivocada, sua deficiência física à deficiência intelectual, revelando uma visão capacitista que atravessa diferentes espaços de convivência.

Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e Tecnologia Assistiva

Para se comunicar, Melody inicialmente utiliza uma prancha de comunicação e, posteriormente, passa a utilizar o Medi-Talker, um dispositivo de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) capaz de transformar símbolos e comandos em fala sintetizada. O momento em que ela utiliza o equipamento pela primeira vez é um dos mais emocionantes do filme, pois representa muito mais do que a possibilidade de "falar": representa o direito de ser ouvida. Pela primeira vez, Melody consegue expressar diretamente seus pensamentos, sentimentos, opiniões e desejos, sem depender exclusivamente da interpretação de outras pessoas. A literatura destaca que a Comunicação Aumentativa e Alternativa favorece a autonomia, amplia a participação nas atividades cotidianas, fortalece as relações sociais e melhora a qualidade de vida de pessoas com comprometimentos na comunicação (MANZINI et al., 2017). Esses benefícios tornam-se evidentes ao longo da narrativa, quando Melody passa a participar mais ativamente da escola, das decisões familiares e das relações sociais.

Inclusão escolar e barreiras

No ambiente escolar, o capacitismo torna-se ainda mais evidente. Inicialmente, Melody frequenta uma turma especial, onde permanece segregada dos demais estudantes, com poucas oportunidades de acesso ao currículo da escola regular. Quando surge a possibilidade de frequentar uma turma do sexto ano, observa-se a resistência da diretora e do professor, que demonstram insegurança quanto à sua presença naquele espaço. O preconceito torna-se explícito quando o professor admite que sequer corrigiu sua prova, pois acreditava que ela seria incapaz de responder às questões corretamente. Essa atitude revela que ele avaliou Melody antes mesmo de conhecer suas capacidades, baseando-se apenas em sua deficiência.

Enquanto estudante, Melody tinha o direito de participar do processo de aprendizagem e de ser avaliada nas mesmas condições que os demais colegas. Ao decidir não corrigir sua prova, o professor impede que ela exerça plenamente seu papel ocupacional de estudante, restringindo seu direito de demonstrar seus conhecimentos. Mesmo após obter a maior nota da turma e conquistar uma vaga na equipe de perguntas e respostas da escola, Melody continua enfrentando situações de exclusão. Antes da viagem para a competição, colegas e professores se reúnem em um restaurante para comemorar, mas ela não é convidada a participar, sob a justificativa de que os alunos se incomodavam com a forma como ela se alimentava. Posteriormente, durante a viagem, a equipe parte sem ela, impedindo sua participação em um evento para o qual havia se preparado e conquistado seu lugar por mérito. Além disso, ao longo do filme, alguns colegas fazem comentários e perguntas capacitistas, reforçando estereótipos e preconceitos.

As situações apresentadas no filme dialogam diretamente com os princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estabelece que todos os estudantes têm direito às aprendizagens essenciais, respeitando suas necessidades, possibilidades e interesses. A BNCC também destaca a necessidade de práticas pedagógicas inclusivas, da eliminação das barreiras e da promoção da equidade, assegurando que os estudantes com deficiência tenham acesso, permanência, participação e aprendizagem na escola comum. Nesse sentido, o filme evidencia que a inclusão não se resume à matrícula do estudante na escola regular, mas depende de mudanças nas atitudes, nas práticas pedagógicas e na forma como a sociedade reconhece as capacidades das pessoas com deficiência.

Ocupações, cotidiano e atividades de vida diária (AVD)

A Melody participa das atividades familiares, das amizades, do lazer e demonstra grande interesse pelos estudos. A comunicação possibilitada pelo Medi-Talker amplia sua participação nesses diferentes contextos, permitindo que expresse suas opiniões, faça escolhas e estabeleça relações de maneira mais independente.

Em relação às atividades de vida diária, Melody apresenta dependência para tarefas que exigem maior mobilidade física, como vestir-se, realizar transferências e tomar banho. O filme reforça que independência e autonomia não são conceitos equivalentes, mesmo necessitando de auxílio físico para algumas atividades, Melody demonstra autonomia para expressar suas preferências e exercer protagonismo quando dispõe de recursos adequados para se comunicar.

Outro aspecto importante é o papel da família no processo de inclusão de Melody. Inicialmente, sua mãe adota uma postura superprotetora, motivada pelo receio de que a filha enfrenta preconceito, frustrações e exclusão na escola regular. Embora essa atitude tenha a intenção de protegê-la, acaba limitando algumas oportunidades. Em contrapartida, o pai assume uma postura ativa na defesa dos direitos da filha, incentivando sua inclusão na escola regular e buscando recursos que favoreçam sua comunicação e autonomia, como a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Além disso, ele encoraja a esposa a acreditar nas capacidades de Melody e a permitir que ela enfrente novos desafios. Ao longo da narrativa, a família passa a reconhecer a importância de estimular sua autonomia e participação em diferentes contextos.

Conclusão

Assim, Fora de Mim faz uma crítica ao capacitismo e às práticas excludentes ainda presentes na educação. A obra demonstra que a inclusão depende da eliminação das barreiras físicas, comunicacionais e, principalmente, atitudinais, reforçando que todos os estudantes têm direito às mesmas oportunidades de aprendizagem e participação quando recebem os apoios necessários. De acordo com Rocha, Castiglioni e Vieira (2001), a inclusão escolar deve ser compreendida como um direito de todas as crianças, sendo a escola comum o espaço mais adequado para promover a aprendizagem, a participação e a valorização das diferenças. Essa perspectiva é evidenciada no filme, no qual Melody demonstra que, ao receber os apoios necessários e oportunidades iguais às dos demais estudantes, é capaz de desenvolver plenamente suas potencialidades.

Referencias:

Castiglioni, M. do C., Vieira, R. de C., & Rocha, E. F. (2001). A inclusão da criança com deficiência na escola comum: reflexões sobre o papel da Terapia Ocupacional. Revista De Terapia Ocupacional Da Universidade De São Paulo, 12(1-3), 8-14.

Manzini, M. G., Martinez, C. M. S., Lourenço, G. F., & Oliveira, B. de B. (2017). Formação de interlocutores de uma criança com paralisia cerebral para o uso da comunicação alternativa/Alternative communication training of interlocutors for children with cerebral palsy. Cadernos Brasileiros De Terapia Ocupacional, 25(3), 553–564. https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoAO1103

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf



NOTAS




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Película:Fuera de mi (Fora de Mim)

Título Original:Out of My Mind

Director: Amber Sealey

Año: 2024

País: Estados Unidos

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