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Preconceito, diferença e participação ocupacional

por Soares Da Cruz, Júlia

Universidade Federal de Pelotas

Resumen:

O presente trabalho analisa o filme Wicked, dirigido por Jon M. Chu, sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, discutindo como preconceito, diferença, desvantagem e exclusão influenciam a trajetória da personagem Elphaba. A narrativa evidencia que sua aparência, marcada pela pele verde, desencadeia processos de estigmatização que limitam seu reconhecimento social e suas oportunidades de participação. Destaca-se a cena do baile da Universidade Shiz, na qual o preconceito interfere em sua participação em uma ocupação social significativa, relacionada ao pertencimento e à convivência. Em contraposição, a relação com Glinda demonstra como vínculos afetivos podem favorecer processos de inclusão. O filme também evidencia como discursos de poder constroem narrativas que transformam a diferença em ameaça, legitimando processos de exclusão. Conclui-se que Wicked ultrapassa os limites da fantasia ao promover reflexões sobre preconceito, poder e participação, evidenciando a importância de enfrentar barreiras sociais que restringem a participação plena nas ocupações humanas.

Palabras Clave: preconceito | diferença | desvantagem | exclusão.

Wicked: Prejudice,Difference and Occupational Participation

Abstract:

This paper analyzes the film Wicked, directed by Jon M. Chu, from an Occupational Therapy perspective, discussing how prejudice, difference, disadvantage, and exclusion shape the trajectory of the character Elphaba. The narrative highlights how her green skin triggers processes of stigmatization that limit her social recognition and opportunities for participation. Particular emphasis is given to the ballroom scene at Shiz University, in which prejudice interferes with her participation in a meaningful social occupation related to belonging and social interaction. In contrast, her relationship with Glinda demonstrates how interpersonal bonds can foster processes of inclusion. The film also shows how power structures construct narratives that transform difference into a threat, thereby legitimizing processes of exclusion. It is concluded that Wicked transcends the boundaries of fantasy by encouraging reflection on prejudice, power, and participation, highlighting the importance of addressing social barriers that restrict full participation in meaningful human occupations.

Keywords: prejudice | difference | disadvantage | exclusion


O filme Wicked, dirigido por Jon M. Chu, revisita a história da Bruxa Má do Oeste, personagem conhecida do universo de O Mágico de Oz, propondo uma nova perspectiva sobre sua trajetória. Ao apresentar Elphaba antes de ser reconhecida como vilã, a narrativa convida o espectador a questionar as ideias tradicionalmente associadas ao bem e ao mal. Mais do que contar a origem de uma personagem, o filme evidencia como a diferença pode ser transformada em motivo de rejeição e como determinadas narrativas são capazes de construir inimigos para atender aos interesses de quem exerce o poder. Nesse contexto, o presente trabalho tem como objetivo analisar, sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, como o preconceito, a diferença, a desvantagem e a exclusão interferem na participação ocupacional da personagem Elphaba.

Desde o nascimento, Elphaba é marcada por sua pele verde. Antes mesmo de demonstrar sua personalidade ou seus valores, ela passa a ser vista como alguém inadequado e diferente dos demais. Sua aparência desperta estranhamento, provoca preconceitos e influencia a maneira como as pessoas se relacionam com ela. Ao longo da narrativa, percebe-se que sua exclusão não ocorre por suas atitudes, mas pelos significados atribuídos àquilo que foge do padrão considerado aceitável. Essa condição a coloca em uma posição de desvantagem, limitando suas oportunidades de participação e reconhecimento social. Sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, processos de preconceito e discriminação produzem barreiras que restringem a participação das pessoas em diferentes contextos da vida cotidiana, favorecendo experiências de exclusão e desigualdade (Farias et al., 2018).

Assim, a trajetória de Elphaba evidencia como características socialmente estigmatizadas podem comprometer o acesso e a permanência em espaços de convivência e participação.

Ao longo da história, Elphaba demonstra qualidades frequentemente associadas aos heróis, como empatia, coragem e senso de justiça. Entretanto, essas características são constantemente ofuscadas pela forma como sua aparência é percebida pela sociedade. A personagem passa a ser julgada antes mesmo de ser conhecida, evidenciando que o preconceito não está relacionado às suas ações, mas aos significados atribuídos à sua diferença. Essa construção evidencia como estereótipos influenciam a percepção coletiva e contribuem para a manutenção de práticas discriminatórias, reforçando a exclusão daqueles que não correspondem aos padrões socialmente estabelecidos. Dessa forma, Wicked convida o público a refletir sobre a facilidade com que indivíduos são rotulados e reduzidos às suas diferenças, desconsiderando sua trajetória, seus valores e suas potencialidades.

A amizade entre Elphaba e Glinda representa um dos momentos mais significativos da narrativa. Essa transformação torna-se evidente na cena do baile da Universidade Shiz. Ao comparecer usando o chapéu que havia recebido, Elphaba é alvo de olhares, risos e julgamentos, permanecendo isolada mesmo em um espaço destinado ao convívio entre colegas. Ainda assim, ela decide dançar, afirmando sua identidade apesar da rejeição. Ao invés de abandonar aquele espaço diante da humilhação, Elphaba transforma sua dança em um gesto de resistência e afirmação de sua identidade. Sob a perspectiva da Terapia Ocupacional, o baile representa uma ocupação social significativa, relacionada ao pertencimento, à convivência e à construção de vínculos. Entretanto, o preconceito e as barreiras atitudinais dificultam sua participação nessa ocupação, restringindo uma experiência importante para sua inserção social. Quando Glinda escolhe dançar ao seu lado, rompe, ainda que simbolicamente, com esse processo de exclusão, favorecendo sua inclusão e demonstrando como relações de acolhimento podem ampliar as possibilidades de participação ocupacional e promover maior justiça ocupacional (Silva & Oliver, 2022).

A relação entre Elphaba e Glinda também evidencia a importância da amizade entre mulheres como espaço de acolhimento, transformação e reconhecimento. Embora suas primeiras interações sejam marcadas por rivalidade e julgamentos, a convivência possibilita que ambas desconstruam as imagens que haviam criado uma da outra. Ao conhecer Elphaba para além de sua aparência, Glinda passa a reconhecer suas qualidades, enquanto Elphaba também aprende a compreender as inseguranças e limitações da colega. Essa relação demonstra que o diálogo e a convivência podem romper preconceitos e fortalecer vínculos baseados no respeito às diferenças. Mais do que uma amizade, a relação entre as personagens representa a possibilidade de enfrentar processos de exclusão por meio da empatia, da solidariedade e do reconhecimento da humanidade do outro.

Outro aspecto relevante da narrativa é a forma como Elphaba escolhe permanecer fiel aos seus valores, mesmo quando isso implica abrir mão do reconhecimento social. Ao recusar compactuar com as injustiças promovidas pelo Mágico, especialmente em relação aos Animais falantes, a personagem assume uma postura ética diante das situações de opressão. Essa escolha evidencia que agir de acordo com princípios de justiça pode gerar isolamento quando confronta interesses políticos e sociais já consolidados. Assim, o filme demonstra que a resistência às injustiças frequentemente resulta na marginalização daqueles que desafiam estruturas de poder, transformando indivíduos que questionam a ordem estabelecida em alvos de perseguição e desconfiança. Esse processo evidencia como o poder pode manipular informações e percepções coletivas para construir narrativas capazes de legitimar a exclusão e transformar sujeitos em ameaças sociais.

Entretanto, à medida que Elphaba questiona as injustiças praticadas contra os Animais falantes e se opõe às decisões do Mágico, sua diferença passa a ser utilizada como instrumento político. Sua imagem é associada ao perigo e sua resistência é transformada em ameaça. A figura da "Bruxa Má" deixa de representar apenas uma personagem e passa a simbolizar a necessidade de criar um inimigo comum capaz de justificar decisões, fortalecer a autoridade e mobilizar a população por meio do medo. Dessa forma, o filme evidencia que discursos políticos podem influenciar a percepção coletiva e produzir narrativas que legitimam processos de perseguição e exclusão, reforçando estereótipos e naturalizando desigualdades.

Um dos momentos mais emblemáticos do filme ocorre na sequência final, quando Elphaba decide desafiar as imposições do Mágico e assumir as consequências de permanecer fiel aos seus princípios. Enquanto Glinda opta por permanecer em Oz, acreditando que ainda pode promover mudanças por outros caminhos, Elphaba escolhe partir, recusando-se a compactuar com as injustiças que presencia. A canção Defying Gravity acompanha a transformação da personagem, simbolizando sua decisão de romper com as expectativas impostas pela sociedade e assumir sua identidade, mesmo diante das consequências de sua escolha. A música marca o momento em que Elphaba deixa de aceitar a identidade que lhe foi imposta pelos outros e passa a assumir sua própria história, reafirmando sua autonomia e resistência. Mais do que uma despedida, essa cena simboliza a consolidação da amizade entre Elphaba e Glinda. Embora sigam caminhos diferentes, ambas demonstram respeito pelas escolhas uma da outra, evidenciando que a verdadeira amizade não exige concordância, mas reconhecimento, apoio e afeto. Dessa forma, a despedida não representa o fim do vínculo entre as personagens, mas a consolidação de uma relação construída a partir do respeito às diferenças e da defesa de valores éticos, mesmo diante de escolhas distintas.

Ao revisitar a história de Elphaba, Wicked convida o espectador a refletir sobre quem define quem é o herói e quem é o vilão. A narrativa demonstra que essas categorias nem sempre são resultado das ações de um indivíduo, mas também das histórias construídas sobre ele e dos interesses presentes em determinado contexto social e político. Sob essa perspectiva, a experiência de Elphaba evidencia que preconceito, diferença, desvantagem e exclusão podem limitar a participação em ocupações significativas e comprometer o exercício da cidadania e do pertencimento social (Farias et al., 2018; Silva & Oliver, 2022).

Assim, o filme ultrapassa os limites da fantasia ao suscitar reflexões sobre inclusão, participação e justiça, reforçando a importância de reconhecer e enfrentar as barreiras sociais que restringem o direito das pessoas de participar plenamente das experiências que dão sentido às suas vidas.

Referencias:

Farias, M. N., Leite Junior, J. D., & Costa, I. R. B. B. da. (2018). Terapia ocupacional e população negra: possibilidades para o enfrentamento do racismo e desigualdade racial. Revista Interinstitucional Brasileira de Terapia Ocupacional, 2(1), 228–243. https://doi.org/10.47222/2526-3544.rbto12712?

Silva, A. C. C., & Oliver, F. C. (2022). A participação social como um caminho possível para a justiça social e ocupacional. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 30(spe), e3081. https://doi.org/10.1590/2526-8910.ctoAO233130811?



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Película:Wicked

Título Original:Wicked: Part One

Director: Jon M. Chu

Año: 2024

País: Estados Unidos

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